Health

Magra com pernas grossas? Investigue – Carol Nogueira

Após passar mais de 15 anos tentando entender porque minhas pernas não emagreciam com dieta e exercícios, um diagnóstico médico revelou a causa

Essa sou eu. Pareço magrinha, né? 🙂

Acho que tinha uns 14 anos quando comecei a comparar meu corpo com o de outras mulheres. Com quase 1,70m e 58kg, meu corpo era parecido com o da maioria das meninas consideradas magras, mas só da cintura pra cima. Minhas pernas, porém, pareciam que pertenciam à outra pessoa — alguém com o dobro do meu peso.

Nunca encanei muito, mas tentei um pouco de tudo para emagrecer. Visitei inúmeros médicos, que só sabiam me falar para fazer mais exercícios, e um até me diagnosticou erroneamente com varizes(!). Cheguei a passar 2 horas na academia quase todo dia e a comer só 200 calorias. Fiquei pesando 49kg, mas o meu corpo não mudou muito, fora os ossos mais aparentes nos braços e ombros. As pernas continuavam iguais.

Minha vida continuou. Eu entrei na faculdade, comecei a trabalhar, e fui ganhando peso como qualquer outra pessoa à medida em que ia virando adulta. Hoje, aos 29 anos, peso cerca de 65kg. Meu IMC é 22.5 — considerado normal. Para atingir um IMC de alguém acima do peso, precisaria engordar uns 7kg. E para ser obesa, precisaria engordar ao menos 21kg. E, no entanto… essas são minhas pernas:

Essa também sou eu, provando calças. É um desafio achar alguma que sirva. Se eu quiser uma skinny, tenho que comprar uma calça reta

Como alguém que passou a vida inteira as escondendo (sem nem usar saias e vestidos), acredite, é difícil postar isso na internet. Mas não quero que outras pessoas passem pelo que eu passei, se culpando durante anos e procurando soluções que não vão mudar nada.

Há cerca de 1 mês, fui diagnosticada com uma doença chamada lipedema (ou lipoedema), também conhecida como síndrome gordurosa dolorosa. A dor foi, na verdade, o sintoma que me fez procurar ajuda. Estou há pelo menos 6 meses com dores em diferentes pontos na perna, entre tornozelos, canelas, joelhos e coxas. E nada faz a dor passar (já tentei antiinflamatórios, gelo, fita kinesiológica, sulfato de magnésio, gel com CBD, e por aí vai).

O lipedema foi descrito pela primeira vez na literatura médica em 1940, pela Mayo Clinic, nos Estados Unidos — considerado o melhor hospital americano, e líder em pesquisas médicas. É uma doença em que as células de gordura crescem de maneira anormal. Com o tempo, essas células doentes bloqueiam as veias e o sistema linfático, o que previne a drenagem, causando retenção de líquidos e, em estágios mais avançados, linfedema. As células também começam a apertar os nervos, e acredita-se que boa parte da dor venha daí.

Apesar disso, a doença é muito pouco estudada e desconhecida até por boa parte da comunidade médica. Em parte, porque não parece ter cura. Sim, porque apesar de se tratar de gordura, a gordura do lipedema é diferente da gordura normal, e não responde a exercícios ou dieta. Existe uma foto, um pouco pesada, que mostra a diferença entre a gordura normal e a gordura do lipedema. Se você quiser vê-la, clique aqui. A gordura também é visível ao apertar e espremer a pele:

Nódulos de gordura do lipedema

Por isso, o único jeito de remover a gordura é cirurgicamente, através da lipoaspiração — e somente cirurgiões que têm experiência com a doença podem fazer a cirurgia, já que é preciso ser gentil com as veias e sistema linfático, que já estão comprometidos por causa da doença. Nesse site, há uma lista dos médicos ao redor do mundo que tratam lipedema. A maioria dos especialistas está na Europa, onde a doença parece ser mais comum e mais estudada, porém já há bastante especialistas nos Estados Unidos também. No Brasil, só existe um cirurgião que faz a lipoaspiração do lipedema, o dr. Fábio Kamamoto, de São Paulo.

A cirurgia, porém, não cura a doença, e existe a possibilidade de que a gordura volte a se formar. É recomendado tratar os sintomas da doença (dor, insuficiência venosa, retenção de líquidos, etc.) para o resto da vida, com drenagem linfática, meias de compressão, e exercício leve — os exercícios de impacto, como corrida, são proibidos, pois agravam a doença.

Sabe-se que o lipedema ocorre majoritariamente em mulheres, e que existe um componente genético — geralmente mães e avós também têm. No meu caso, herdei da minha avó paterna. A doença pulou o meu pai.

Essa era minha avó; pela foto, dá pra ver que ela tinha lipo-linfedema, um estágio bem avançado da doença

Sabe-se também que a doença tende a se desenvolver e/ou piorar durante momentos de mudanças hormonais, como puberdade, gravidez, e menopausa. É, porém, comumente confundida com obesidade, já que a maioria das suas portadoras são também obesas. A obesidade também parece ser um fator que contribui para a doença. Geralmente, a doença começa nas pernas, e pode se espalhar para outros lugares, principalmente os braços.

Existem quatro estágios da doença, e cinco tipos:

Os quatro estágios do lipedema. Em geral, a doença começa no estágio 1 e progride ao longo da vida.
Os cinco tipos do lipedema: Tipo 1 (glúteos); Tipo 2 (glúteos, quadris e coxas); Tipo 3 (Quadris, coxas e panturrilhas); Tipo 4 (braços); Tipo 5 (Panturrilhas)

Os sintomas

Estes são alguns dos principais sintomas do lipedema:

  • Pernas com aspecto de “pilares”, desproporcionais ao resto do corpo; geralmente, os locais mais afetados são os joelhos e tornozelos, deixando um “anel” de gordura (os pés não são afetados, ao contrário do linfedema)
  • Dor e sensação de peso nas pernas
  • Pernas que ficam com hematomas facilmente
  • Histórico familiar
  • Hipersensibilidade ao toque
  • Pele com pouca elasticidade, muitas vezes bem branca e transparente
  • Pele fria
  • Hiper-flexibilidade (algumas pessoas têm também EDS, síndrome de Ehlers-Danlos)
  • Fadiga
  • Deficiência de certas vitaminas e minerais, como vitamina D, B12, ferro, magnésio, etc.
  • Também são comuns problemas na tireoide, como hipotireoidismo

Os tratamentos

O lipedema não tem cura, porém, existem alguns tratamentos que ajudam:

  • Lipoaspiração (o único jeito de remover a gordura, e sem garantia de que ela não vai retornar)
  • Drenagem linfática, dry brushing, gua-sha, vibração, trampolins, e qualquer coisa que ajude a mover o fluído e sangue
  • Exercício leve, como caminhadas, bicicleta, pilates, e especialmente aquáticos (natação, hidroginástica) são os mais recomendados, pois a pressão da água atua como compressão sobre a pele (exercícios de impacto, como corrida, não são recomendados, já que agravam a doença)
  • Existem relatos entre portadores da doença de que certas dietas, como paleo/AIP e ketogênica, ajudam na perda de peso e manutenção da doença
  • Existem também alguns suplementos que são recomendados. A dra. Karen Herbst, estudiosa do assunto, tem uma lista ótima
Uma das fotos mais famosas do lipedema, em uma mulher anoréxica; ao contrário da gordura normal, a doença não responde a restrições calóricas

O baque emocional

Até agora, eu falei praticamente só dos aspectos médicos da doença, mas não posso deixar um aspecto essencial de fora, que é o emocional. A maioria das mulheres que sofre com o lipedema passa a vida inteira se perguntando o que fizeram de errado, e o que poderiam fazer para consertar as pernas grossas. Ficamos achando que talvez comemos demais, que somos preguiçosas, e ouvimos isso de médicos (mal-informados) também. Com isso, vem ansiedade, depressão, transtorno dismórfico corporal (você vê o seu corpo pior do que ele é).

Fora isso, mesmo depois do diagnóstico, ainda existe um outro problema, que é o fato de a doença não ser tão conhecida — sem pesquisar no Google, fica parecendo que é algo que você inventou. Por causa disso, ninguém entende o efeito que a doença tem em você, ou a dor que você sente.

Uma amiga chegou a sugerir que eu procurasse um nutricionista — o que implica que talvez ela pense que eu não sei me alimentar direito — , mesmo após eu dizer que a doença não respondia à dietas e exercícios. Na verdade, ao longo de todos esses anos, eu li tanto sobre saúde e nutrição, que, quando vou ao médico, não escuto nada novo.

Pra piorar, a maioria dos médicos desconhece o lipedema, e portanto, nenhum plano de saúde cobre a lipoaspiração, ainda que ela seja a única maneira de a paciente levar uma vida normal e sem dor. Muita gente, nos estágios avançados da doença, acaba se aposentando por invalidez. Imagina tentar andar com toda essa gordura? Eu estou entre o estágio 1 e 2 e não consigo andar rápido, e sinto enorme peso nas pernas ao subir escadas.

Espero que, dividindo com outras pessoas o que aprendi depois do meu diagnóstico, eu possa ajudar outras portadoras de lipedema. Se você está lendo isso e tem lipedema ou desconfia que tenha, saiba que você não está sozinha, e que a culpa não é sua. Se você conhece alguém que possa ter a doença, compartilhe. Ela vai te agradecer.


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